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Pagode: Histórico, característica e a trajetória do samba
Devemos entender o pagode como um movimento que surgiu com o objetivo de atingir camadas populares de forma a envolvê-las numa forte manifestação de caráter popular.
O pagode aconteceu de maneira espontânea, defendendo o samba na medida em que as próprias escolas de samba cederam a interesses alheios à comunidade e ao sambista, deixando de ser um caráter popular e de ser o ponto máximo da expressão da cultura negra, especialmente no Rio de Janeiro.
O pagode não é um novimento recente; pelo contrário. Enquanto nas salas de visitas ouviam polcas, mazuscas, valsas, xotes e grupos de choro, nos quintais, nas salas de fundo, nos terreiros, eram cantados grandes pagodes em meio ao samba raiado e a batucada, como nas festas da Casa da Tia Ciata pelos idos de 1910. Na casa da Tia Ciata, em 1917, foi composta a primeira composição com o nome de samba: "Pelo Telefone", de Donga.
Nos anos 10 e 20, a casa da Tia Ciata já era um núcleo de resistência do samba e, como descreveu Lima Barreto: "Minha mãe fazia festa para reunir meus colegas e amigos de origem. As festas duravam às vezes dias e dias. Tinha comes e bebes e não faltava o baile na sala de visitas. O samba raiado na sala dos fundos e batucada no terreiro. Para fazer a festa, minha mãe ia buscar o alvará na polícia."
Logo em seguida, nos anos 20 e 30, no Estácio de Ismael e dos outros sambistas, foi fundado o Rancho Deixa Falar, onde o samba era a principal preocupação.
No final dos anos 40, o centro era no Império Serrano e nos anos 50 no forró do Salgueiro. Logo após, as escolas de samba incorporaram elementos alheios à sua cultura para obterem aceitação mais ampla de seu espetáculo.
Com os anos 60, na Rua da Carioca, surgiu o Zi Cartola. Neste local, mais do que a música ao vivo, a importância ficava por conta do encontro de grandes sambistas como Cartola, Nelson do Cavaquinho, Paulinho da Viola, Zé Ketti e Elton Medeiros.
Seguindo sua trajetória e lutando por sobreviver, o samba mudou de estilo, passando a receber a denominação de partido alto, com o III Festival da MPB da TV Record, em São Paulo. Competindo com Beatles, a Tropicália, a Jovem Guarda, o sambista popular Martinho da Vila penetrou neste círculo fechado e colocou o samba em ascensão até o final dos anos 60.
Foi nesta época que o pagode surgiu na sua forma atual, divulgada e em moda. Na casa do sue Alcides, em Botafogo, em torno de uma grande mesa, reuniam-se cantores e compositores, em grande formalidade, comendo e bebendo.
Nesta década de 70, fundou-se o G.R.ªN. - Escola de Samba Quilombo, iniciada pelo saudoso Candeia, com amigos portelenses como André Motta Lima, Cláudio Pinheiro e Paulinho da Viola, entre outros, buscando a valorização das culturas negras e da manifestação de arte popular banida do seio das Escolas de Samba.
Porém foi no Cacique de Ramos que o pagode tornou-se popular, a partir de 1977. Fundado há 25 anos atrás, na comunidade de Ramos, este bloco tem hoje sua sede na Rua Uranos, no Rio de Janeiro.
E foi lá, no Terreiro do Cacique que, o pagode tornou-se conhecido através de compositores e dirigentes que há muito se reuniam nas festas de Walter do Alomar, Bira, Chiquita e Elza Soares, primeira madrinha do Cacique de Ramos.
Toda quarta-feira, estes compositores e muitos sambistas reuniam-se no Cacique de Ramos, com a finalidade de jogar futebol. No entanto, alguns compositores como Jorge Aragão, Dida, Neoci, Sereno e Chiquita não jogavam e ficavam cantando e batucando samba ao lado da quadra de futebol. Aos poucos fora reunindo mais adeptos, e até hoje há um pagode às quartas-feiras com presença de sambistas famosos, como a cantora Beth Carvalho, que despontou e foi descoberta neste clube.
O pagode de fundo de quintal, quanto aos temas, à dinâmica rítmica do samba e à concepção melódica, é mais livre, não tendo o compromisso com o samba tradicional, não deixando, no entando, de haver uma preocupação dos compositores em busca da qualidade.
A linguagem utilizada na composição do samba de pagode é corriqueira e popular, e a inspiração acontece no cotidiano do povo carioca. É uma composição alegre e simples. Os pagodeiros dizem: "Vamos contar um boi com abóbora".
É o caso do pagode de "Feirinha da Pavuna" cantado por Jovelina Pérola Negra:
"Na feirinha da Pavuna
Houve uma grande confusão
A dona cebola que estava invocada
Ela deu uma tapa no seu pimentão
Seu tomate cheio de vergonha
Ficou todinho vermelho e falou assim:
- eu também faço parte do tempero
seu pepino que estava no canto
deu uma pernada na dona melancia
Dona Abóbora muito gorda, nem do canto ela saia
Vou chamar seu delegado, que é o seu jiló
De amargar. E falou pra todo mundo
Acho bom isso acabar, acho bom isso acabar."
Na dinâmica rítmica foi introduzido um modo todo especial de tocar. Há uma associação de instrumentos bem diferentes que, teoricamente, não poderiam ser tocados ao mesmo tempo. Porém, com a prática e habilidade produzem um ritmo diferente e numa perfeita harmonia.
A introdução do banjo no lugar do tradicional cavaquinho foi feita por Almir Guineto, tocado anteriormente nos bailes do Salgueiro por seu pai. O banjo e o cavaquinho são os únicos instrumentos de corda num pagode, cercados pelos instrumentos de percussão: repique de mão, tan- tan, tocados com as mãos, sem baquetas, o que torna o toque muito sensível, assim como o pandeiro.
Em relação à instrumentação utilizada nos pagodes, comparada ao samba tradicional, é diferente, pois o tan- tan faz a marcação substituindo o surdo, que foi tirado dos juntos de rumbeiros e era conhecido por tambora. O repique é um tambor bem menor, cuja batida foi criada pelo saudoso percussionista Doutor, que batia, às vezes, até com os anéis.
Nos pagodes há um espaço para um samba novo, seja do tipo partido alto, que é um samba versado e muitas vezes de improviso, seja do tipo samba dolente, romântico ou até o caxambu, que é um samba de roda da Bahia adaptado por músicos cariocas.
"A arte é livre e aberta
A imagem do seu criador
Samba é a verdade do povo
Ninguém vai deturpar seu valor
Canto de novo
Canto com os pés no chão
Com o coração canta meu povo".
Candeia