André Neves, um grande ilustrador.
André Neves

André Neves é um dos mais renomados ilustradores de literatura infantil e juvenil da atualidade. Pela mídia paulistana, já foi comparado ao notável ilustrador inglês Dave MacKean e da mídia sulista recebeu o Prêmio "O Sul - Correios e os Livros" de Melhor Autor Infantil de 2003.

Há quase dez anos atua como ilustrador, lançou mais de 50 obras; foi indicado ao Prêmio Jabuti e recebeu o Prêmio Luís Jardim na categoria Melhor Livro de Imagem com Seca.

Sua obra mais recente é Maria Peçonha para a qual fez texto e imagens. Confira a entrevista que concedeu à DCL sobre seu novo trabalho.

DCL - Conte um pouco sobre a sua vida e os acontecimentos que o trouxeram para a literatura infantil?

ANDRÉ NEVES (AN) - Tive um bom contato com a literatura infantil desde criança porque minha mãe era professora. Quando estudei Relações Publicas estagiei no espaço Pasárgada (patrimônio cultural tombado pelo estado de Pernambuco), casa onde nasceu o poeta Manuel Bandeira. Foi então que tive oportunidade de reencontrar a literatura e sentir de perto a mágica do surgimento de um livro. Descobri também a ilustração.
Depois de um tempo fui para São Paulo. Cheguei à Bienal Internacional do Livro para descobrir tudo de perto. Levei também alguns desenhos e foi aí que tudo começou...

DCL - Você começou em 95. De lá para cá mudou alguma coisa no seu estilo de ilustrar livros?

AN - Radicalmente. Em São Paulo descobri que ilustrar para crianças era muito mais do que desenhar bem, era sentir. Tinha de me expressar com um estilo e não com uma técnica. Embora, ainda hoje ainda permanecem algumas características do início da carreira.

DCL - Qual tem sido o seu contato com o público infantil?

AN - É variado, principalmente porque com o livro chego as crianças mesmo sem a minha presença. Mas o contato pessoal, o cara a cara, só em escolas e feiras.

DCL - Qual a seu principal objetivo/preocupação, ao escrever e ilustrar para crianças?

AN - Não me preocupo com o que chamam de "mensagem". Nunca me influenciei pela moral da história. Se me sensibilizar, já faz "sentido para ser sentido".

DCL - Como surgiu a idéia de escrever Maria Peçonha, seu novo livro lançado pela DCL?

AN - No momento em que li uma reportagem sobre a existência de um fenômeno chamado desertificação, no Rio Grande do Sul, Maria Peçonha apareceu para contar como isso aconteceu.

DCL - A lenda que conta no livro existe mesmo?

AN - Sim. Na minha imaginação, sim.

DCL - A cidade de Alegrete é realmente florida?

AN - Não. Essa foi uma criação para dar alicerce à natureza de Peçonha. Alegrete ainda é considerada uma das cidades mais tradicionais do Rio Grande do Sul. Está a 497 km da capital, Porto Alegre. Possui uma área imensa e mais de 84 mil habitantes. Sua economia é baseada na agropecuária e no comércio.

DCL - Nota-se, ao ler o livro, que houve uma preocupação com as informações contidas na história. Houve pesquisa? Comente.

AN - Muita. Sobre a cidade, a cultura desse povo e, principalmente, sobre o período histórico em que acontece a narrativa.

DCL - Quanto tempo levou para terminar de escrever a história?

AN - Faz muito tempo que desenvolvi a história. Ela ficou adormecida e nesse sono profundo fui estudando, pesquisando, mexendo aqui e ali, entre outras atividades profissionais. Isso levou um tempo enorme. É difícil de acreditar e ver que finalmente ela nasceu depois de três anos de "gestação".

DCL - Seu primeiro livro pela DCL, Sebastiana e Severina, conta sobre tradições orais e populares do Nordeste; Maria Peçonha, sobre uma lenda do Sul que incorpora tradições orais e populares dessa região. Comente as diferenças da criação dessas duas obras.

AN - A questão da cultura oral vem em primeiro lugar diferenciando os dois livros. Os usos e costumes aparecem o tempo todo e acentuam fortemente a narrativa da cultura popular dessas regiões. Até a poesia popular, usada nos diálogos dos personagens da história, reflete o que cada região tem particular. Enquanto Sebastiana e Severina falam num ritmo envolvente, como o cordel nordestino, Maria Peçonha pronuncia palavras com a sonoridade e a métrica da poesia popular gaúcha.
Acho que esse ponto foi o mais interessante e o mais difícil de ser elaborado.

DCL - A idéia do seu projeto com a DCL é formar uma trilogia. Você já sabe qual será o próximo título?

AN - Ainda não. Mas a próxima história com certeza também vai ser inserida numa outra região carregada de cultura popular.

DCL - Sobre as ilustrações, que também foram feitas por você, quanto tempo demorou para finalizá-las?

AN - As ilustrações foram o último passo. Acho que as finalizei uns três meses antes de entregá-las à editora para o início do processo gráfico.

DCL - Você fez e refez alguma delas? Por quê?

AN - Sim. Usei técnica e material diferenciados. Isso dificultou no início.
Às vezes, aquilo que havia imaginado não dava certo; nesses momentos fui em busca de mais imaginação para encontrar outra saída.

DCL - Fale sobre projetos futuros.

AN - Adoro ilustrar. Tenho alguns projetos para desenvolver em parceria com outros escritores. Como falei, nesse tempo que virá estarei desenvolvendo outras histórias, outras imagens, outras surpresas de minha própria criação. Tenho lido muita coisa no campo da cultura popular. Esse universo fantástico e infinito me interessa bastante. Provavelmente estarei sempre percorrendo por esse caminho.

DCL - André, se houver alguma curiosidade que queira contar a todos, fale.

AN - O interessante de comentar sobre o meu universo particular, é que vivo num mundo mágico de fantasia. Estou sempre lendo e vendo imagens para poder transformar meus sonhos em realidade. Às vezes, paro e penso num momento legal que não aconteceu no meu dia. Volto a sonhar mais bonito durante a noite.
Muitos leitores não imaginam as figuras que me acompanham no dia-a-dia. São amigos de um mundo especial que me ajudam a viver aqui. Estou sempre com eles: criando, brincando, dando passagem mais leve a meus compromissos e responsabilidades com a vida.
Em meu coração de criança ainda cabe muito mais da infância. Por isso, permaneço no passado com alegria e felicidade, subindo e descendo veloz na ladeira da imaginação.

Fonte da entrevista: http://www.editoradcl.com.br/2009/entrevista.asp?cod=3
 

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