O Estúdio fez contato com uma rendeira do Ceará...
Vale conferir a entrevista que fizemos com Dona Maria Olinda.

Ela estava à beira-mar e não mediu palavras para nos contar um pouco sobre a vida de uma rendeira de verdade, made in Brazil!

Estúdio - Fale um pouco sobre a sua vida...
D. Maria Olinda - Tenho 63 anos. Tive 14 filhos, oito morreram em diversas idades, desde natimorto até uma de 16 anos. Meu marido não prestava de jeito nenhum, vivia com mulheres e de uma delas teve 7 filhos, dos quais 4 eu criei.

Estúdio - Por que hoje não se faz renda?
D. Maria Olinda - Porque hoje é dia de São Francisco.

Estúdio - Que instrumento é esse?
D. Maria Olinda - É um bilro. É um pau com uma bolota de semente de buriti na ponta. Eu trabalho com 4 nas coisas mais simples e vou até 120 bilros nas colchas e toalhas.

Estúdio - Quem lhe ensinou a fazer rendas usando bilros?
D. Maria Olinda - Aprendi a fazer renda com 6 anos, com a mãe e desde essa idade trabalho com renda.
Dizem que a renda vem dos portugueses mas eu acredito que aqui já havia, pois tem esculturas de índias com a almofada de lado.

Estúdio - Como vocês chamam as rendas?
D. Maria Olinda - As rendas são chamadas renda da terra, não tem outro nome, nem tipo. Tem assim: porta-copos, toalhinhas de bandeja, tolhas de mesa, caminhos de mesa, saída de praia, blusas, saias.

Estúdio - E como se prepara todo esse aparato?
D. Maria Olinda - Como faz? Você prepara uma almofada de pano cheia de folha de bananeira, mais ou menos do formato oval. Coloca um papelão com o desenho do que se vai fazer. Por exemplo, se é um porta-copos, o desenho é redondo do tamanho de um copo e vai tecendo a renda. Cada bilro é enrolado com a linha (fina ou grossa ou de cor) e vai fazendo um verdadeiro malabarismo é uma rapidez impressionante. Quando você faz um pedaço, muda o lugar do alfinete e vai tecendo. Se for renda por metro, quando acaba aquele pedaço, vai puxando pra trás o pedaço feito e recomeçando até fazer metros e metros de renda.

Estúdio - E que tipo de trabalho a senhora faz aqui?
D. Maria Olinda - Aqui na beira-mar só faço porta-copos porque a almofada é pequena, mais ou menos uns 40 cm, as toalhas e coisas maiores eu só faço em casa.

Estúdio - E este lugar é especial para as rendeiras?
D. Maria Olinda - Eu pago 10 reais por mês à Prefeitura pelo aluguel do ponto. Nós desmanchamos a barraquinha lá pela meia noite, guardamos em uma garagem e também pagamos e no outro dia, por volta das 15 horas, começamos a armar tudo novamente.

Estúdio - E sua residência fica distante deste lugar?
D. Maria Olinda - Moro em Aquiraz, a 50 quilômetros de Fortaleza, ponto turístico de artesanato. Vou e venho todo dia.

Estúdio - E o que mudou nesse tempo todo em que a senhora fez renda?
D. Maria Olinda - Criei todos os filhos com a venda de rendas pois o marido nunca deu nada, mas com a industrialização não dá mais pra se viver. Tem dias que não vendo nada. São assim umas 300 barracas. É um trabalho lindo mas as de indústria são mais bonitas e o pessoal daqui não dá valor, só turistas. Antigamente se usava muito em enxoval de noivas, hoje é tudo muito mais prático.
As famílias iam aprendendo e passando de geração para geração. Hoje as jovens não querem mais, só vivem pra estudar, tem tanto dever que não dá tempo de fazer renda.

Obs.: Foram preservados os termos e a forma de falar de D. Maria Olinda.
A Equipe EstúdioWeb agradece imensamente a Professora Maria Dulce Brito, do Ceará, que fez o contato com Dona Maria Olinda e ficou responsável pela organização da entrevista.

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