Era uma vez um viúvo tão pobre que precisou abandonar um dos filhos na floresta. Um sorteio decidiu que sua filhinha Maria é que devia partir. A menina sentiu profunda tristeza. Depois que o pai a deixou na floresta, ela vagou por muito tempo. Quando já não aguentava mais subiu numa árvore para descansar e avistou o telhado de uma casa. A menina foi até lá e descobriu que a casa estava deserta. Entrou e ouviu uma voz lhe dizer:
- Maria Gomes, vá comer!
Nisso, viu uma mesa repleta de pratos deliciosos. Depois, a voz lhe disse:
- Vá descansar, Maria Gomes.
Ela foi até o quarto, onde encontrou uma linda cama. E assim viveu durante muitos dias. Até que a voz lhe disse:
- Amanhã haverá um cavalo branco esperando por você. Ele trará um tesouro amarrado à sela. Entregue-o ao seu pai, mas nunca lhe diga onde está morando.
Maria obedeceu à voz e, quando chegou em casa, todos ficaram muito felizes. Mas logo ela partiu de volta para a casa misteriosa. O tempo foi passando, e Maria sempre visitava a sua família e levava-lhes dinheiro. Um dia seu pai faleceu e a jovem chorou muito. Então seu cavalo lhe disse:
- Maria, ouça bem. Vista-se de homem e encontre outro cavalo branco. Siga os conselhos de seu novo animal. Assim terá a felicidade.
Maria passou a trabalhar no jardim do palácio de um rei. Mesmo pensando que Maria fosse um jovem, o filho do rei se apaixonou por ela. Preocupado, o príncipe dizia à mãe:
Minha mãe do coração
Os olhos de Gomes matam.
São de mulher, sim.
Não são de homem, não.
Certo dia o cavalo deu um estranho conselho a Maria:
- Esta noite, tire o chapéu, deixe os cabelos soltos e depois abra a janela.
Acontece que justamente nesta noite o príncipe, insone, passeava pelo jardim. Quando notou a janela aberta, resolveu espiar se o jardineirinho dormia. Ao avistar a linda Maria adormecida, percebeu que estava certo: havia se apaixonado por uma bela jovem. Entrou no quarto, declarou seu amor e pediu a mão da moça em casamento.
E assim a pequena Maria, que fora abandonada na floresta, salva pelos cavalinhos mágicos, e que se fingira de rapaz, acabou virando a princesa do mais belo palácio do sertão.
(História do folclore brasileiro)
Heloisa Prieto, in Lá vem História Outra Vez: Contos do Folclore Mundial.
São Paulo, Companhia das Letrinhas. 1997